(Pensamento de uma mulher)
Enquanto espero por ele, vou reparando na paisagem bela que
me rodeia.
Estou numa esplanada de um café onde posso observar o imenso
mar azul, ao longe, quase no horizonte consigo ver um navio, quando olho para
baixo, vejo pessoas na praia, umas na toalha a bronzearem-se, outras na água a
boiar e consigo ver as crianças a brincar, algumas a correr, outras a fazerem
castelos de areia, o céu está azul e o sol está no alto muito brilhante. Ao meu
lado tenho pessoas a beberem café e a conversarem. Um pouco atrás de mim está
uma senhora muito atarefada com um bebé ao colo a chorar.
Estava a olhar para a praia, enquanto oiço alguém a
sentar-se, o barulho da cadeira a raspar no chão fez-me arrepiar. Era ele,
finalmente. Oh como estava lindo! Já o vi tantas vezes, mas hoje está diferente
aos meus olhos.
Veste uma t-shirt verde com um logótipo muito engraçado,
demonstra um pouco a sua personalidade, tinha uns calções de ganga e calçava
uns ténis, que por acaso fui eu que os ofereci. Faz-se acompanhar por uma
prancha de surf o que distrai o bebé que chorava atrás de mim.
Creio que está um pouco incomodado, pois o reflexo do sol na
mesa encadeia-lhe os olhos castanhos, quando vejo aqueles olhos fazem tanto lembrar-me tudo aquilo que já passei
com ele, para mim aqueles olhos contam-me uma história, admito que evito
olhar-lhe nos olhos, por medo de cair naquela história tão perfeita.
E quando ele fala, o meu mundo pára por completo, tem uma
voz tão melancólica, o que se passa com
ele? Eu lembro-me, a voz dele não era assim, era uma voz que me transmitia
alegria.
Para evitar aquele olhar feroz e ouvir apenas aquela voz,
olho para a mesa e vejo o meu reflexo, e toco na mesa, como se tivesse a tocar
na minha face, acaricio a minha cara, tal como ele me fazia e tento
relembrar-me do toque dele, era um toque quente e fazia-me sentir segura. A mão
dele está também sobre a mesa a pouca distância da minha.
Está na altura de agarrar-lhe na mão e perguntar-lhe o que
se passa com ele.
(Pensamento de um homem)
Estava eu sentado
á sua frente quando reparei bem o quanto ela era bonita, apesar de já a ter
visto infinitas vezes, naquele dia ela parecia diferente. Não sei se era porque
se tinha arranjado melhor, o que duvido, ou se porque poderia ser a última vez que
a veria. Aquele cabelo loiro encaracolado tão brilhante, que sobressaía com a
sua pele bronzeada devido ao sol que tinha apanhado no Brasil. Aqueles olhos
azuis mais límpidos do que o próprio mar e céu que nos rodeava naquela tarde
calma na esplanada. Aqueles lábios carnudos pintados com um tom vermelho, tão
vivo que pareciam chamar-me. Aquele vestido branco rendado que lhe aperfeiçoava
a silhueta, e que realçava ainda mais a sua beleza. Aqueles vários acessórios,
desde relógios caros com várias cores a anéis cintilantes, colares de pérolas e
brincos que faziam barulho como os espantam espíritos. Aquela beleza toda dela,
que só agora eu tinha reparado com mais pormenor, talvez tarde demais…
Ela é simples, não gosta de grandes
complicações, no entanto está sempre a arranjá-las. É compreensiva, simpática e
de certo modo algo teimosa. É muito ciumenta, e não tem razões para isso. É
despachada e odeia atrasos, coisa que eu várias vezes faço. Tem um grande
sentido de humor, que só utiliza nos momentos indicados.
Naquele momento, quando estava a olhar
para ela, consegui ver perfeitamente as suas imperfeições e a sua beleza
natural. Consegui ver os seus defeitos e as suas virtudes, e não queria que
isso acabasse, portanto achei melhor contar-lhe tudo de uma rajada e não deixar
mais suspense. Agora só quero tê-la aqui ao pé de mim.
(O segundo texto, "(Pensamento de um homem"), não é da minha autoria mas sim de uma amiga minha, Rita Alves, que ajudou-me a criar duas perspectivas de um casal.)