A ler

Pessoas curiosas

sábado, 7 de setembro de 2013

O que o mar esconde









   Nunca tinha visto o mar tão revolto - as ondas chegavam à costa com tal brutalidade que quase engoliam a encosta. Ondas violentas, muito maiores que eu, cheias de espuma, carregadas de ódio. Foi a imagem mais linda que vi. O som, o cheiro e o vento a passar pelo meu corpo arrepiavam-me e isto era como um convite irrecusável. E nós éramos assim. Ondas salgadas, espumosas, revoltadas, intocáveis. Quem olhava para nós, sentia o perigo, o ódio recíproco, a loucura, a obsessão, a coragem. Mas como todas as ondas, elas terminam e nós não fomos de todo exceção à regra. Ondas calmas, pacíficas, harmoniosas, acolhedoras ocuparam o nosso mar. Fecho os olhos diante da monstruosa paisagem e espero que os meus ossos se transformem em ferrugem ou sal.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Flores e amor


       Ela entregou-me com as mãos trémulas um vaso retangular com umas flores lindíssimas e disse :"Mesmo que as flores morram, este vaso vai perdurar e poderás plantar mais flores." Na altura, nada entendi do que ela dissera, mas tinha sentido. Por descuido deixei as flores morrerem, voltei a plantar outras e voltaram a morrer. Desde então que a janela onde estava o vaso deixou de ter cor, não tenho paciência para plantar e cuidar das flores.
      E o vaso é a metáfora do amor. Quando tudo corre bem o canteiro está cheio de flores de várias cores. Contudo, quando a terra seca, as flores morrem, o pedaço de plástico permanece, apesar de ser só um objeto é possivel plantar mais flores nele. O amor nunca desaparece, pode perder as flores, mas a base permenacerá.

sábado, 25 de maio de 2013

Nascer e pôr do sol


    E o que é a morte para além do nascer e pôr do sol?
    Todos os dias nasço, todos os dias morro. A alegria de ter pessoas a meu redor faz-me nascer e a tristeza das mesmas irem embora, faz-me morrer. Contudo, existem dias em que não se nasce, porque há quem não volte - ditas esperas contínuas sem vontade de renascer.
    Sou a mistura de um cemitério e uma maternidade. Tenho a vida e a morte de cada pessoa, por isso, todos nós somos misturas de outras pessoas inconscientemente.

sábado, 23 de março de 2013

Sonhos

   Os sonhos são muito mais que imagens que nos lembramos depois de acordármos ou um alimento doce e saboroso que comemos principalmente na época natalícia.
   Os sonhos não se vêem, não se tocam, não se fazem ouvir, mas realizam-se e nesse momento eles ganham cor, tornam-se visíveis. Uma pessoa que não sonha, não vive, apenas deixa-se levar pelo tempo, porque viver é sonhar. A pessoa sonha, ambiciona, luta e realiza o sonho. Os sonhos são as metas da vida e não há ninguém que não goste do sabor da vitória.
   Nós, meros sonhadores ou apenas escravos do tempo, podemos realizar o sonho de alguém e seremos recompensados com a felicidade do outro. O mundo avança quando alguém sonha e se todas as pessoas do mundo juntarem os seus sonhos num saco enorme, quando o saco fosse despejado o mundo seria muito melhor.

domingo, 10 de março de 2013

Presente, passado e presente

"Ela só vive a pensar no passado. Ela vive no passado. Pensa que o passado é o seu presente. Se ela agora vive no presente, sendo passado, o seu futuro será o seu presente. E isto é um ciclo. Porque sendo assim o seu futuro, será somente o seu passado.Ela, escrava do tempo, ainda tem os seus misteriosos "dejavus". Ainda vê momentos já vividos,  que nem se lembra quando ocorreram."

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Seja qual for o sabor dos meus lábios


    Ultimamente tenho acordado sozinho, sem o barulho da água a correr enquanto ela tomava banho, ou o som do microondas a funcionar, ou a ausência do ruído da televisão ligada.
    O lugar que ela ocupava na minha cama, já está ocupado. Aquele pedaço de vidro igual a tantos outros que se tornou meu amante para o resto das madrugadas da minha vida. Não amo de todo o vidro que dá forma ao objecto, mas sim a anestesia que o seu conteúdo me proporciona em noites onde o luar já não te traz para perto de mim. Um pedaço de vidro que não me dá amor como ela. O lugar onde ela dormia já não tem o cheiro dela. Agora o cheiro é intenso, o lençol já não é branco. Nem mil lavagens na máquina lhe tiram os restos de álcool e o ácido das lágrimas no tecido, tal como nem mil madrugadas a vão tirar do meu pensamento.
    Por vezes acordo com o barulho de algo a partir e penso que és tu a deixar cair um copo, como tu eras desastrada. Por momentos solto um sorriso, e volto a sentir-me em casa na minha própria casa. Levanto-me para ir ver-te e vejo pedaços de vidro no chão do quarto. É agonizante mexer-me demais durante o sono.
    Antes do meu sangue se transformar em álcool, vem ter comigo e salva-me. Estou cansado de jogar ás escondidas e não conseguir encontrar-te. Tudo o que eu mais quero é o sabor dos teus lábios.