Comecei a pensar mais no pássaro do que no meu trabalho. Eu era presa a tudo aquilo; ao meu emprego, ao café sem falta depois de almoço, ao ser cuidadosa com tudo o que vestia para não parecer o quão desorganizada estava. Eu estava presa a mim. E isso é grave. Gravíssimo. Estarmos presos a nós e não conseguirmos sair do nosso corpo para nos vermos , é horrível. Eu falava, falava, mas ninguém conseguia entender que estava presa. Ninguém ficava a olhar para mim espectado, só não tinham paciência. Eu falava e ninguém ouvia.
Foi aí que percebi que não vale a pena prender um coração. O instinto do pássaro é voar, então porquê prende-lo? Enquanto ele estiver naquela gaiola minúscula, não vai sair, só vai cantar , para alguém escutá-lo e deixá-lo voar. Então, enquanto eu continuar com a minha rotina medonha, só a falar, também não vou conseguir voar.
Agora tu, que me escutas ou me lês, solta o meu coração.
